Investimentos no exterior: o que fazer?

Investimentos no exterior continuam sendo uma estratégia viável e relevante na construção de carteiras diversificadas, especialmente em um cenário de elevado nível de incertezas. No entanto, para um horizonte de curto prazo, como o objetivo de atingir a meta atuarial em 2025, a dinâmica dos mercados internacionais exige uma análise detalhada dos riscos e das perspectivas econômicas. A volatilidade dos mercados traz maior imprevisibilidade nos retornos, o que representa um risco especialmente para os objetivos de curto prazo. Esse risco tem ganhado força especialmente pelo contexto de uma possível desaceleração econômica global, onde os impactos da confiança do consumidor e das políticas monetárias podem ampliar o grau de incerteza.

O índice de confiança do consumidor dos Estados Unidos, indicador importante para avaliar a percepção da população sobre a economia, tem mostrado uma queda significativa. Esse movimento reflete uma piora nas expectativas de renda futura, com impactos diretos sobre o nível de consumo. Podemos utilizar a teoria da Renda Permanente, de Milton Friedman, para compreender como a confiança do consumidor impacta os ativos financeiros. De acordo com essa teoria, o consumo depende da expectativa de renda ao longo do tempo. Quando as pessoas passam a acreditar que sua renda futura será menor, elas ajustam suas decisões de consumo para refletir essa expectativa, o que pode levar a uma queda na demanda agregada. Essa redução do consumo tem efeitos negativos nos lucros das empresas, refletindo-se na revisão para baixo das estimativas de lucros e nos preços dos ativos.

Adicionalmente, o aumento da incerteza nos mercados financeiros tende a estimular um comportamento mais cauteloso por parte dos agentes econômicos, favorecendo a elevação da taxa de poupança. Quando os consumidores percebem maior risco em relação ao futuro, ajustam seus gastos, o que acaba afetando a demanda e desacelerando a atividade econômica. Esse ciclo tende a se intensificar quando o crédito se torna mais restrito, uma consequência comum de uma menor confiança, o que prejudica ainda mais o consumo e, por conseguinte, a atividade econômica.

Em um cenário de crescente incerteza, os mercados financeiros estão sujeitos a um ciclo adverso, no qual a retração do consumo compromete a lucratividade das empresas, afetando negativamente a precificação dos ativos e desencadeando uma sucessiva revisão negativa das expectativas de preços. Dados recentes, divulgados pelo Bureau of Economic Analysis dos Estados Unidos, corroboram com tal visão, mostrando que apesar do aumento da renda pessoal e da renda disponível em fevereiro, os gastos de consumo têm crescido em um ritmo menor. Isso resultou em um aumento da taxa de poupança para 4,6% da renda pessoal disponível. Esse comportamento sugere que os consumidores estão mais cautelosos, preferindo reservar uma parte maior de sua renda diante da incerteza econômica, que inclui, entre outros fatores, a política monetária ainda restritiva. Esse movimento pode reforçar a tendência de desaceleração econômica.

Outro fator relevante que deve ser analisado é o impacto da inflação global. Em um cenário de barreiras comerciais e aumento dos custos de insumos e bens intermediários, a inflação tende a se espalhar ao longo das cadeias produtivas, elevando os preços de bens e serviços e impactando a economia de forma mais globalizada. Esse fenômeno pode ser compreendido com a teoria do efeito contágio, na qual choques econômicos em determinados setores se propagam para outras partes da economia. Esse efeito de transmissão inflacionária reduz o poder de compra dos consumidores, o que tende a uma desaceleração da demanda, afetando diretamente a atividade econômica. A resposta dos bancos centrais, ao elevar ou manter as taxas de juros em patamares elevados para conter a inflação, pode impulsionar uma contração na atividade, já que os juros mais altos aumentam o custo do crédito e desincentivam o investimento produtivo. Esse ciclo de inflação elevada combinado com juros restritivos pode levar a uma desaceleração econômica e aumento do risco de crédito, o que reflete em maior volatilidade nos mercados financeiros.

Neste cenário, é importante entender qual o melhor posicionamento para o curto e longo prazo. Investir no exterior pode ser vantajoso, especialmente para aqueles que buscam diversificação e exposição a mercados mais maduros, mas o timing se faz importante. No curto prazo, a volatilidade nos mercados financeiros pode ser um obstáculo significativo, enquanto no longo prazo os ativos internacionais podem oferecer retornos atrativos à medida que as condições econômicas se mostrarem favoráveis.

Diante desse cenário, a análise de risco torna-se fundamental. A escolha entre ativos conservadores ou mais agressivos dependerá não apenas do horizonte de investimento, mas também da tolerância a risco por parte do investidor. Em momentos de alta incerteza, como o atual, ativos conservadores, como fundos DI e títulos públicos federais, representam opções prudentes, especialmente no horizonte de curto prazo em que se busca o atingimento da meta atuarial anual, enquanto a alocação em ativos mais voláteis, como renda variável internacional, são opções que exigem um horizonte de longo prazo.

Ressaltamos ser essencial que a gestão do RPPS tenha uma estratégia clara, que considere não apenas a rentabilidade esperada, mas também a sua necessidade de liquidez e a sua capacidade de lidar com possíveis oscilações nos preços dos ativos em carteira.

Neste contexto, conforme temos recomendado desde o segundo semestre de 2024, quando percebemos maiores incertezas e riscos no contexto global, alinhados a uma grande valorização do índice S&P 500, orientamos que os RPPS façam preferência por ativos de renda fixa conservadores, especialmente neste momento de alta nas taxas dos títulos públicos e privados, bem como diante da tendência de que fundos DI entreguem retornos alinhados à meta atuarial de 2025, mesmo com todo conservadorismo da estratégia.

Nossa conclusão permanece a mesma análise apresentada no Relatório Macro de janeiro, reafirmando orientações destacadas naquele momento: “investimentos no exterior continuam sendo viáveis e podem representar um ativo importante na carteira, mas tendo em vista que, para um horizonte de curto prazo, como a busca por atingir a meta em 2025, a volatilidade traz maior imprevisibilidade nos retornos.”

Prezando pela prudência na gestão dos recursos previdenciários, consideramos mais viável abdicar de um possível ganho de longo prazo, proveniente de investimentos no exterior, a fim de reduzir a volatilidade da carteira e as incertezas de curto prazo. Para isso, reiteramos a recomendação de priorizar a alocação dos recursos em ativos conservadores, que têm demonstrado potencial para alcançar a meta atuarial neste ano.

ELABORAÇÃO

Felipe Mafuz

REVISÃO

Matheus Crisóstomo

EDIÇÃO

Tamyres Caminha

DISCLAMER

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